Nilton Bobato
   POESIA 7

LIMITE

 

Hoje passei dos limites

Hoje mesmo

Perdi o controle

Perdi a paciência

Hoje mesmo

Não suportei o faltar

de consciência

Não suportei o falar

para as paredes

 

Ando tão bruto

Insensível

Impaciente...

Tenho vontade

de chorar

(Prato Feito, 2005)



Escrito por Nilton Bobato às 20h19
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   CONTO 6

UMA NOITE GELADA

 

A calçada é fria. Aliás, como é frio este mês de julho. Meu corpo fede. Fede a mijo, fede tanto quanto ronca o meu estômago. Ao meu lado somente este cachorro sarnento de sempre, que me acompanha em todas as esquinas desde que vim parar aqui. Nenhuma alma viva, nenhum olhar de piedade.

         Veja cão o que somos. Duas amebas inertes, inconcebíveis, dois dejetos da sociedade. O que você está me olhando? Acha que eu estou mentindo?

         Não. Claro que não. Você nunca mente.

         O quê? Devo estar enlouquecendo. Tudo bem, minhas pernas doem, meus ossos estão congelando e mal sinto minhas mãos, mas ouvir a resposta de um cachorro é demais.

         Por que é demais? Ora bolas, eu sempre falo com você. Você é que nunca responde, sempre fica me olhando com esta cara de besta. Quem nunca me entendeu é você, eu sempre lhe entendi. Ou você acha que os cachorros não pensam, não raciocinam. Isso é balela que contaram pra você.

         Pára, pára, pára com isso. Será que é falta de crack? Hoje não me aqueci. Os caras sumiram, se esconderam do frio e me deixaram aqui, sem nada. Isso só pode ser vertigem, alucinação. Além de tudo, um cachorro inteligente, que pensa. Tô completamente louco.

         Isso já é ofensa. Será que você não percebe? Está num outro patamar, chegou ao nosso nível, por isso você pode me entender. Os humanos são todos idiotas mesmos, se acham os seres mais superiores do planeta e, no entanto estão aí, se matando.

         Pare de falar, está me dando dor de cabeça.

         Olhe só para você. Que monte de estrume é você. Um bosta. Já teve tudo, os melhores vinhos, as melhores mulheres, os melhores restaurantes, já fez sucesso. Que merda era tudo aquilo.

         Como você sabe disso? Não, não pode ser. Só pode ser essa merda de dor que ataca meu peito. Isso não está acontecendo. Ou está?

         Meu chapa, eu sei de tudo. Sempre ouvi você falando. Tô dizendo, os seres humanos são tão estúpidos que sempre acham que não entendemos o que eles falam. E vou lhe contar mais, agora você pode saber. Vários seres, que vocês chamam de animais, são mais inteligentes que vocês, entendem todas as línguas do mundo, por isso vivem nas cidades. Somos nós, os cães, os gatos, os ratos, os coelhos, os cavalos. Todos nós entendemos todos. Vocês que são uns imbecis, retardados, que nem entendem vocês mesmos, ficam aí se matando por pequenos prazeres, pequenos poderes, que não servem pra nada. Agora você sabe que não servem pra nada.

         Cara, eu tô com muita vontade de chorar. Olha a merda que eu virei. Jogado na rua.

         Quem diria que você chegaria a isso. Mas nem tudo está perdido, você não perdeu seus traços, sua inteligência.

         Mas, e todo aquele poder que eu tive?

         O que você fez com aquilo? Nada. Só usou para seus próprios prazeres. Você sabe onde estão seus filhos, agora? Pois é, o gato, aquele que está sempre por aqui, me falou que o mais velho é amante de sua amante, que está seguindo seus passos, deve ter o mesmo destino que o seu. Uma mulher mais esperta vai tomar tudo dele e ele se enterrará em alguma droga que vocês humanos inventaram. Bando de estúpidos.

         Você está inventando isso. Você não tem como saber disso e muito menos um gato.

         Ora bolas, quer que eu fale mais. Pois falarei. Sua filha, hoje já tem 18 anos, se transformou em garota de programa de luxo. Todos os seus amigos já dormiram com ela. E se isso não basta, seu filho mais novo está preso num destes centros que detém menores. Ajudava um traficante. Ah! Você conheceu o traficante, era amigo seu, freqüentava sua casa.

         Pare. Por favor, pare. Eu sinto muito frio. Frio demais. Por que está me torturando? Eu sei que fui eu que provoquei tudo isso. Sei, tá bom. Está ficando mais frio... eu já... meus olhos... minha cabeça...

Um ruído abafado ecoa na calçada fria. Começam a surgir os primeiros raios de sol neste alvorecer gelado. O uivo alto do cão chama a atenção da viatura policial que contorna a esquina. Dois policiais descem do veículo.

         O cara deve ter morrido de frio. Liga pro IML.

         Vamô saí daqui, tá muito gelado.

O cachorro deita-se ao lado do corpo inerte. Uiva quando vê que os policiais estão indo embora. Outras pessoas, apressadas e com frio, passam pela esquina, desviam, enojadas, do cadáver cheirando a urina estendido no chão e do animal exalando sarna ao seu lado.

Três horas depois, um carro do IML aparece para retirar o corpo. O cão late três vezes ao ver o cadáver ser jogado dentro da viatura.

O sol já ilumina a esquina e o vira-latas, sentindo fome, vai atrás de comida e de um outro parceiro.



Escrito por Nilton Bobato às 20h08
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