Nilton Bobato
   POESIA 6

EVOLUÇÃO

 

Olho em volta.

O que vejo?

Fujo. Corro.

Tenho medo.

Assusto-me...

Escondo-me...

 

Troquei a indignação

pelo horror.

Substituí a revolta

pelo nojo.

 

Olho em volta.

Trêmulo. Assustado.

O que vejo?

Um menino,

sujo, ..., fedorento, ...,

se aproxima, ...

 

(Prato Feito, 2005)



Escrito por Nilton Bobato às 21h22
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   CONTO 5

O ATRASO

 

Ouvi o barulho seco. Parecia um martelo batendo insistentemente em uma bigorna (não sei por que cheguei a esta conclusão, desconheço o que significa um martelo batendo contra uma bigorna). Uma, duas, três batidas em seqüência. Não era um martelo. A conclusão foi óbvia: pareciam pequenas e fortes explosões secas. Seriam tiros? De onde viriam? Em seguida o silêncio. Somente o ruído de algumas vassouras usadas por garis que varriam a rua naquele início de tarde, e só naquele momento os percebia quase embaixo da sacada. Duas jovens e um rapaz passavam pelo mesmo local, seguidos de uma criança, uma motocicleta e uma estudante que vinha em sentido contrário. Todos desviando-se dos garis

- uma senhora e três senhores.

Aos pedestres juntaram-se dois outros adolescentes, um senhor que limpava o gramado ao lado, mais duas estudantes e um sujeito mal encarado, que tentava desviar o rumo da poeira levantada pelos garis. (Apesar da chuva do final da tarde, o pó de meses de estiagem continuava ali, agora misturado a galhos e folhas jogados pelo vento forte do dia anterior.) Todos, sem exceção, não deram a mínima para os ruídos secos que ouvia até há pouco. Aparentemente não tinham escutado ou notado qualquer coisa anormal.

De novo os ruídos. Idênticos aos que escutei anteriormente: aparentavam algo seco, cortado, como se fossem tiros de arma automática (também não sei por que a conclusão, já que nunca tive em minhas mãos qualquer armamento). Levantei-me, fui até a cerca da sacada, um homem encostado em uma moto parada, com dois capacetes, observava a cena.

A rua quase vazia: só restava eu, uma mulher dormindo na calçada em frente e o motoqueiro do outro lado. Ele parecia nervoso, olhava para os lados e me observava.

De repente um carro, não um carro comum, mas um veículo de luxo. Contornou a esquina em baixa velocidade e parou por alguns segundos próximo à motocicleta, acelerou e novamente parou, desta vez na esquina em frente. Pensei em sair da sacada, entrar, mas o motoqueiro acelerou e saiu, foi em direção ao carro de luxo, que entrou na rua à esquerda (um beco sem saída). Uma moça jovem e loira observava a moto e seu piloto. A árvore em frente à sacada não me permitia ver se o homem da moto seguiu o veículo, que retornou em marcha à ré.

A loira voltou rua abaixo. O carro manobrou e retornou em direção à sacada onde eu estava. Sentei-me, preferi não entrar. Duas pessoas estavam no interior do carro, mas não consegui distinguir seus rostos. O passageiro me olhou e logo em seguida virou a face na direção contrária. A moça desapareceu e o motoqueiro também. Só consegui memorizar as letras da placa do carro: LKS.

Meus sentidos são desviados na direção oposta à esquina para onde o veículo de luxo se dirigiu. Observo sua silhueta surgindo, olho no relógio, mais de uma hora de atraso. Já temia pelo pior. Levanto, me certifico de que o carro de luxo havia desaparecido, entro, vou até a cozinha, abro uma cerveja. É preciso parecer tudo normal. Alguns segundos e ouço a campainha tocar, desço para abrir a porta.

(Prosa de Sacada, 2005 - Editora Paricah)



Escrito por Nilton Bobato às 21h18
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