Nilton Bobato
   POESIA 16

ROTINA

 

As mesmas histórias se repetem

Como um livro não escrito

Ou um poema repetido

Insistentemente

 

A tempestade pinta nosso céu de negro

O granizo cai sobre nossas cabeças

O vendaval arranca nossas árvores

Impiedosamente

 

O mato continua a crescer no quintal

As frutas apodrecem nos galhos

As flores murcham no jardim

Rotineiramente

 

Amarramos nossas mãos para não desatar os nós

Fazemos de conta que não vemos os sinais

Tapamos os ouvidos para os ruídos

Repetidamente

 

Neste semestre tudo igual outra vez

O amor é superado pela estupidez

Os mentirosos se julgam vitoriosos

 

Procuro a receita

Um dia ditada por Renato

Dou voltas na quadra

Quase sem destino

Mas tento estancar o sangue

E olho para as flores murchas

Grito por uma nova primavera

Que é preciso ter esperanças

Ver a água límpida azul

No fundo do poço

Sorrindo



Escrito por Nilton Bobato às 12h03
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   CONTO 7

A BARBEARIA

 

A navalha desliza pelo pescoço, lentamente. O barbeiro, um nordestino falante, limpa o instrumento com um líquido desconhecido para o cliente, provavelmente álcool com alguma mistura e volta a deslizar a lâmina afiada pelo pescoço do homem grisalho, raspando os fios de barba negra com fios brancos que teimosamente insistem em ficar ali. Com a outra mão umedece a garganta e o queixo do cliente com outro líquido pastoso. É trabalho de artista moldando sua obra.

O homem sentado, com a cabeça deitada para trás horizontalmente ao corpo, apoiada por um suporte colocado na cadeira, a jugular completamente submissa ao lento deslizar da navalha e à mão do barbeiro. Sente-se como o tronco sendo esculpido pelas mãos ágeis do artesão, indefeso, entregue à sua vontade.

“Este cidadão pode fazer o que quiser comigo. E se esta navalha escorregar e cortar minha garganta? Ele pode dizer que foi apenas um acidente”.

O barbeiro continua o trabalho com maestria. A lâmina percorre suavemente a pele do pescoço, subindo em movimentos verticais e ritmados até a curva do queixo. Com o lado da mão esquerda desloca levemente o rosto do cliente para a direita e com a outra faz o instrumento cortante percorrer o lado esquerdo da mandíbula.

“O homem tem poder sobre mim. Se eu fizer um movimento brusco darei a ele a justificativa de que precisa para dizer que é um acidente”.

Com um novo leve toque, o barbeiro vira o rosto do cliente para o lado esquerdo e reinicia o processo de percorrer a navalha pela mandíbula, antes umedecendo o local com o líquido pastoso. Após limpar a lâmina em um tecido exposto sobre o pequeno balcão a sua frente, o barbeiro faz pequenos toques com a navalha entre o lábio superior e o nariz para corrigir o bigode.

“Se eu cortar a jugular deste cara, não vai dar nem tempo dele gritar. Deveria fazer isso com este filho da puta. Ele nem me reconhece, nem lembra o que me fez passar. Faz tempo, né desgraçado? Você esqueceu. Eu não. Seria muito simples, vingança fácil. A lâmina escorregou”.

Faz a navalha percorrer a parte inferior entre o lábio e a curvatura do queixo. Após executar esta etapa, conduz o instrumento até as proximidades da orelha direita e desenha uma pequena costeleta. Alterando a direção do rosto do cliente, o barbeiro faz o mesmo do lado esquerdo. Outra vez massageia o pescoço do cliente com o líquido pastoso e mais uma vez faz a lâmina deslizar sobre a jugular do homem sentado na cadeira, desta vez horizontalmente. A obra quase pronta, o artista a admira.

“Ou ele poderia simplesmente fazer um movimento brusco do lado contrário, digo que a navalha encontrou uma veia saliente e, coitado, o homem morreu, o sangue jorrou. Ele irá agonizar, ver o sangue esguichar até o teto. Desesperados chamaremos a ambulância, mas quando chegar será tarde demais. Doce vingança”.

Com agilidade, o barbeiro massageia o pescoço do cliente, percorrendo com as duas mãos banhadas por uma loção pós-barba com odor de menta todos os lados do pescoço. O tronco agora é arte exposta.

“Obrigado senhor. O pagamento é no caixa. O próximo”.

“Obrigado você. Gostei desta barbearia e o seu trabalho é bom, voltarei na semana que vem”.

“Estou aqui para lhe atender, senhor”.

 

 



Escrito por Nilton Bobato às 11h19
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   POESIA 15

CONVERSA DE UMA MANHÃ

 

Eu direi para você

Outros já escreveram disso

Você já falou disso

Mas não se importe

Venha falar de seus amigos

E de seus inimigos

Venha brincar de sorrir e pular

Correr

Olhar o sol se pondo

Admirar o sol nascendo

Deixa eu repetir as mesmas coisas

Talvez até colocar uma bola vermelha

No nariz

Não estarei só

Olhe em meus olhos

Veja as nuvens por detrás das montanhas

Você prefere não acreditar

Mas existem riachos

Estradas de chão

Janelas para olharmos

Ver através das grades

Vamos pular carnaval

Sem noção de samba

Cantar uma música

Sem qualquer afinação

Salte os buracos das calçadas

Esburacadas

Aceite o risco de tropeçar

Não se prenda

Atravessaremos a ponte

É só olhar o horizonte

Está ali tão próximo

Quem diz que não dá

Eu estava em casa só

Foi você que começou

Agora não me venha

Com estas conversas

Há brilho no sol

E você prometeu sorrir

Então me dê um sorriso de bom dia.



Escrito por Nilton Bobato às 16h43
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   POESIA 14

EMBALANDO

 

Caminho e ouço sua voz

Todo cambia el momento

Ouvir o canto que se foi

Como el mosquito en la piedra

Mas ficou a voz

Como el amor con sus esmeros

Puro y sincero

Vá Mercedes, espalhar seu canto

Derramar sua voz em outras plagas

Vá brotando e vá brotando

Pois flores e sementes nascerão

Frutos ficarão

No canto

Na voz

Na mente

No sonho

Que todos um dia sonhamos

Vá Mercedes, espelhe seu canto

Mesmo quando no haja nada cerca o lejos

Continue oferecendo seu coração

Continue hablando por la vida

Hablando de cambiar esta nuestra casa

Cambiarla por cambiar no más

Vá Mercedes, esparrame seu canto

Sua voz continua aqui

Suas cinzas embalarão novas esperanças

Sua suavidade rebelde continuará

Embalando...

Embalando...

Embalando...

Vá Mercedes...



Escrito por Nilton Bobato às 19h58
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   POESIA 13

 

CEGOS TATEANDO CORRIMÕES

 

Quando as luzes brilharem no asfalto

O rock’n’roll cruzar ondas sem intervalos

As guitarras soarem acordes tristes

 

Então chegará a hora de revelar as mentiras

As histórias que os homens não contam

Impõe-nos em silêncio ensurdecedor

 

Parecemos árvores que não geram frutos

Raízes que não crescem em terreno rochoso

Suportes de areia que não sustentam pilares

 

Somos gritos mudos

Cegos tateando corrimões

Surdos escutando notas desafinadas

 

Minha alma diz que tenho de descansar

Meu corpo grita e pede para seguir em frente

Minha consciência manda eu me calar

 

Hoje ouço uma canção lenta

Vejo bebês engatinhando

Crianças coloridas sorrindo

 

Amanhã será a descoberta do universo

O segundo para esconder a tristeza

O minuto para a essência ilusionista

 

Haverá um dia em que pedirei socorro

Esse dia ainda não chegou

Quando chegar, avisarei

Correrei em sua direção

Por ora fico aqui

 



Escrito por Nilton Bobato às 20h32
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   POESIA 12

ABRA A PORTA

 

Venho em sua porta bater

porque acredito ser possível

sonhos construir

tempo e palavras transformar

 

Venho em sua porta bater

pois quero lhe convidar

para este jardim regar

este edifício alicerçar

este caminho pavimentar

 

Venho em sua porta bater

preciso de sua companhia

sozinho, nossas possibilidades

pequenas continuarão

meros sonhos serão

 

Abra esta porta

Sorria

Escrito por Nilton Bobato às 12h01
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   POESIA 11

JARRAS TILITANTES

 

Eu sinto a dor flácida

Vendo o sangue nas águas jorrar

Sentindo minha fronteira sangrar

Com uma bala inlácida

Atirada pelas esquinas

De natureza morta

De cânticos surdos

De lágrimas incólumes

Como o tremor da alma

 

Matam-nos dia a dia

E sorriem dia a dia

Bebem nosso sangue

Em jarras tilitantes

Escrito por Nilton Bobato às 08h35
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   POESIA 10

DESEJO

 

Desejo que o meu mundo

Seja imensamente mundo

Desejo que o meu mundo

Seja construído como mundo

Tijolo por tijolo

Grão por grão

Passo a passo...

Lentamente...

Como um desejo!

Escrito por Nilton Bobato às 12h10
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   POESIA 9

AOS ESQUECIDOS

 

Quando eu gritar

Ouça-me

Meu grito quer ecoar

O eco dos desesperados

 

Quando eu rir

Ri comigo

Meu riso quer celebrar

A celebração dos derrotados

 

Quando eu chorar

Enxugue minhas lágrimas

Meu choro recorda a dor

A dor dos aviltados

 

Quando eu cantar

Acompanhe-me

Minha voz quer cantar

O canto dos esquecidos

 

Eles estão nas ruas

Nos casebres

Nos becos

Nos cantos escuros

Nas esquinas da cidade

 

Quando você se envergonhar

Da sujeira

Do cheiro fétido de suor

Do corpo esquálido

 

Quando você se esbaldar

Com vinho e champanhe

Com carnes finas

Com carrões do ano

 

Lembre-se

Eles não gritam

Eles não riem

Eles não choram

Eles não cantam...



Escrito por Nilton Bobato às 00h11
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   POESIA 8

TESTAMENTO

 

Quando eu morrer

não chore, sorria!

Quando eu morrer

não reze, cante!

Quando eu morrer

não compre um caixão

com flores

não encomende um terno

sem cor

não pinte minhas unhas

 

No dia da minha morte

faça uma festa

Neste dia terei amado

a noite toda

Terei abraçado e beijado

meus filhos

 

Quando minha morte vier

quero estar empinando pipas

no gramadão

Neste dia quero ter

suado a camisa

jogando futebol

 

No dia de minha morte

escreverei poemas e contos

revelarei ao mundo

todo o amor que senti

e os sonhos que realizei

até o dia que minha morte chegou

 

Quando este dia acontecer

estarei reunido com

meus mais queridos

amigos

Tomarei cerveja

e acenderei um

cigarro

esperando

na varanda

de minha casa

no crepúsculo

de uma tarde

ensolarada



Escrito por Nilton Bobato às 22h13
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   POESIA 7

LIMITE

 

Hoje passei dos limites

Hoje mesmo

Perdi o controle

Perdi a paciência

Hoje mesmo

Não suportei o faltar

de consciência

Não suportei o falar

para as paredes

 

Ando tão bruto

Insensível

Impaciente...

Tenho vontade

de chorar

(Prato Feito, 2005)



Escrito por Nilton Bobato às 20h19
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   CONTO 6

UMA NOITE GELADA

 

A calçada é fria. Aliás, como é frio este mês de julho. Meu corpo fede. Fede a mijo, fede tanto quanto ronca o meu estômago. Ao meu lado somente este cachorro sarnento de sempre, que me acompanha em todas as esquinas desde que vim parar aqui. Nenhuma alma viva, nenhum olhar de piedade.

         Veja cão o que somos. Duas amebas inertes, inconcebíveis, dois dejetos da sociedade. O que você está me olhando? Acha que eu estou mentindo?

         Não. Claro que não. Você nunca mente.

         O quê? Devo estar enlouquecendo. Tudo bem, minhas pernas doem, meus ossos estão congelando e mal sinto minhas mãos, mas ouvir a resposta de um cachorro é demais.

         Por que é demais? Ora bolas, eu sempre falo com você. Você é que nunca responde, sempre fica me olhando com esta cara de besta. Quem nunca me entendeu é você, eu sempre lhe entendi. Ou você acha que os cachorros não pensam, não raciocinam. Isso é balela que contaram pra você.

         Pára, pára, pára com isso. Será que é falta de crack? Hoje não me aqueci. Os caras sumiram, se esconderam do frio e me deixaram aqui, sem nada. Isso só pode ser vertigem, alucinação. Além de tudo, um cachorro inteligente, que pensa. Tô completamente louco.

         Isso já é ofensa. Será que você não percebe? Está num outro patamar, chegou ao nosso nível, por isso você pode me entender. Os humanos são todos idiotas mesmos, se acham os seres mais superiores do planeta e, no entanto estão aí, se matando.

         Pare de falar, está me dando dor de cabeça.

         Olhe só para você. Que monte de estrume é você. Um bosta. Já teve tudo, os melhores vinhos, as melhores mulheres, os melhores restaurantes, já fez sucesso. Que merda era tudo aquilo.

         Como você sabe disso? Não, não pode ser. Só pode ser essa merda de dor que ataca meu peito. Isso não está acontecendo. Ou está?

         Meu chapa, eu sei de tudo. Sempre ouvi você falando. Tô dizendo, os seres humanos são tão estúpidos que sempre acham que não entendemos o que eles falam. E vou lhe contar mais, agora você pode saber. Vários seres, que vocês chamam de animais, são mais inteligentes que vocês, entendem todas as línguas do mundo, por isso vivem nas cidades. Somos nós, os cães, os gatos, os ratos, os coelhos, os cavalos. Todos nós entendemos todos. Vocês que são uns imbecis, retardados, que nem entendem vocês mesmos, ficam aí se matando por pequenos prazeres, pequenos poderes, que não servem pra nada. Agora você sabe que não servem pra nada.

         Cara, eu tô com muita vontade de chorar. Olha a merda que eu virei. Jogado na rua.

         Quem diria que você chegaria a isso. Mas nem tudo está perdido, você não perdeu seus traços, sua inteligência.

         Mas, e todo aquele poder que eu tive?

         O que você fez com aquilo? Nada. Só usou para seus próprios prazeres. Você sabe onde estão seus filhos, agora? Pois é, o gato, aquele que está sempre por aqui, me falou que o mais velho é amante de sua amante, que está seguindo seus passos, deve ter o mesmo destino que o seu. Uma mulher mais esperta vai tomar tudo dele e ele se enterrará em alguma droga que vocês humanos inventaram. Bando de estúpidos.

         Você está inventando isso. Você não tem como saber disso e muito menos um gato.

         Ora bolas, quer que eu fale mais. Pois falarei. Sua filha, hoje já tem 18 anos, se transformou em garota de programa de luxo. Todos os seus amigos já dormiram com ela. E se isso não basta, seu filho mais novo está preso num destes centros que detém menores. Ajudava um traficante. Ah! Você conheceu o traficante, era amigo seu, freqüentava sua casa.

         Pare. Por favor, pare. Eu sinto muito frio. Frio demais. Por que está me torturando? Eu sei que fui eu que provoquei tudo isso. Sei, tá bom. Está ficando mais frio... eu já... meus olhos... minha cabeça...

Um ruído abafado ecoa na calçada fria. Começam a surgir os primeiros raios de sol neste alvorecer gelado. O uivo alto do cão chama a atenção da viatura policial que contorna a esquina. Dois policiais descem do veículo.

         O cara deve ter morrido de frio. Liga pro IML.

         Vamô saí daqui, tá muito gelado.

O cachorro deita-se ao lado do corpo inerte. Uiva quando vê que os policiais estão indo embora. Outras pessoas, apressadas e com frio, passam pela esquina, desviam, enojadas, do cadáver cheirando a urina estendido no chão e do animal exalando sarna ao seu lado.

Três horas depois, um carro do IML aparece para retirar o corpo. O cão late três vezes ao ver o cadáver ser jogado dentro da viatura.

O sol já ilumina a esquina e o vira-latas, sentindo fome, vai atrás de comida e de um outro parceiro.



Escrito por Nilton Bobato às 20h08
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   POESIA 6

EVOLUÇÃO

 

Olho em volta.

O que vejo?

Fujo. Corro.

Tenho medo.

Assusto-me...

Escondo-me...

 

Troquei a indignação

pelo horror.

Substituí a revolta

pelo nojo.

 

Olho em volta.

Trêmulo. Assustado.

O que vejo?

Um menino,

sujo, ..., fedorento, ...,

se aproxima, ...

 

(Prato Feito, 2005)



Escrito por Nilton Bobato às 21h22
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   CONTO 5

O ATRASO

 

Ouvi o barulho seco. Parecia um martelo batendo insistentemente em uma bigorna (não sei por que cheguei a esta conclusão, desconheço o que significa um martelo batendo contra uma bigorna). Uma, duas, três batidas em seqüência. Não era um martelo. A conclusão foi óbvia: pareciam pequenas e fortes explosões secas. Seriam tiros? De onde viriam? Em seguida o silêncio. Somente o ruído de algumas vassouras usadas por garis que varriam a rua naquele início de tarde, e só naquele momento os percebia quase embaixo da sacada. Duas jovens e um rapaz passavam pelo mesmo local, seguidos de uma criança, uma motocicleta e uma estudante que vinha em sentido contrário. Todos desviando-se dos garis

- uma senhora e três senhores.

Aos pedestres juntaram-se dois outros adolescentes, um senhor que limpava o gramado ao lado, mais duas estudantes e um sujeito mal encarado, que tentava desviar o rumo da poeira levantada pelos garis. (Apesar da chuva do final da tarde, o pó de meses de estiagem continuava ali, agora misturado a galhos e folhas jogados pelo vento forte do dia anterior.) Todos, sem exceção, não deram a mínima para os ruídos secos que ouvia até há pouco. Aparentemente não tinham escutado ou notado qualquer coisa anormal.

De novo os ruídos. Idênticos aos que escutei anteriormente: aparentavam algo seco, cortado, como se fossem tiros de arma automática (também não sei por que a conclusão, já que nunca tive em minhas mãos qualquer armamento). Levantei-me, fui até a cerca da sacada, um homem encostado em uma moto parada, com dois capacetes, observava a cena.

A rua quase vazia: só restava eu, uma mulher dormindo na calçada em frente e o motoqueiro do outro lado. Ele parecia nervoso, olhava para os lados e me observava.

De repente um carro, não um carro comum, mas um veículo de luxo. Contornou a esquina em baixa velocidade e parou por alguns segundos próximo à motocicleta, acelerou e novamente parou, desta vez na esquina em frente. Pensei em sair da sacada, entrar, mas o motoqueiro acelerou e saiu, foi em direção ao carro de luxo, que entrou na rua à esquerda (um beco sem saída). Uma moça jovem e loira observava a moto e seu piloto. A árvore em frente à sacada não me permitia ver se o homem da moto seguiu o veículo, que retornou em marcha à ré.

A loira voltou rua abaixo. O carro manobrou e retornou em direção à sacada onde eu estava. Sentei-me, preferi não entrar. Duas pessoas estavam no interior do carro, mas não consegui distinguir seus rostos. O passageiro me olhou e logo em seguida virou a face na direção contrária. A moça desapareceu e o motoqueiro também. Só consegui memorizar as letras da placa do carro: LKS.

Meus sentidos são desviados na direção oposta à esquina para onde o veículo de luxo se dirigiu. Observo sua silhueta surgindo, olho no relógio, mais de uma hora de atraso. Já temia pelo pior. Levanto, me certifico de que o carro de luxo havia desaparecido, entro, vou até a cozinha, abro uma cerveja. É preciso parecer tudo normal. Alguns segundos e ouço a campainha tocar, desço para abrir a porta.

(Prosa de Sacada, 2005 - Editora Paricah)



Escrito por Nilton Bobato às 21h18
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   POESIA 5

PRAZER HIPERBÓLICO

 

Fátima chegou-se ao seu lado

Sussurrou aliterações em seu ouvido

Segredou os mais secretos segredos

Fez-lhe esquecer-se dos seus

 

Ele acreditou na felicidade verde

Fátima teve certeza que era azul

Encheram-se de prazer sinestésico

Sentiram aquela tarde de verão

 

Iluminados com a luz do sol do sul

Sonharam com os solos ensolarados

Fátima sorriu maliciosamente

Construíram paranomásias assindéticas

 

Descobriram as elipses do mundo

Nas zeugmas dos quartos parcos

Assonânticos quânticos despersônicos

Fátima pensou nas silepses da vida

 

Com os sabores implícitos da carne

Fátima se entregou aos solecismos

Procuraram anacolutos nos corpos

Desenharam as antíteses do êxtase

 

Na inversão das luzes semi-apagadas

Na hipérbole dos lençóis amassados

Fátima apagou o pecado de sua crença

Gozou na gradação de sua respiração

 

Naquela tarde de verão sem cacófatos

Naquele quarto de motel metonímico

Ele entendeu a fantasia dos eufemismos

Fátima conheceu sua perífrase recôndita

 

Hoje ele se foi

Hoje Fátima se foi

Retornaram aos seus

Mas nada importa

O clímax explícito

Tatuado na carne

Ficou

Aguardando um outro dia

Para se transformar em catacrese

Em outra palavra

Outras metáforas

Buscando tradução

Prazer polissíndeto

Anáforo...

Escrito por Nilton Bobato às 19h38
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